O Casamento e a Marcha Fúnebre

7 02 2010

*post agendado

Eu não entendo como alguém pode se casar e esperar ser feliz com isso. Não entendo. Eu não passaria nem seis meses ao meu lado, se tivesse essa opção. Mas as pessoas se conhecem, namoram e casam, mesmo sabendo que o outro nunca vai deixar aquela mania chata de cutucar os dedos do pé enquanto dorme. Mas melhor parar. Deve dar algum azar ser padrinho de um casamento e botar pilha contra a cerimônia. Apesar de ter conversado com o diabo, eu só acertei as pontas com Deus mesmo e é melhor não tirar o regente milenar do sério.

Mas olha, casar é engordar. E não do jeito gostoso, cheio de pedaços de carne do outback e material genético alheio. É ganhar peso por reter mágoas, sentimentos ruins e tesão por outras pessoas. É estar tão preso à alguém que o seu próprio corpo torna-se uma cela, impossibilitando qualquer possibilidade de visita conjugal.

E mesmo com essa visão, fui convidado a ser padrinho. A me juntar àquelas pessoas felizes e bem-vestidas, com lágrimas nos olhos e que acreditam realmente que o amor vai superar à lua-de-mel programada à Aruba, mesmo com as ameaças de gripe suína.

Nenhum assento vazio, decoração pomposa, muitas fitas, muitos laços, uma banda de rock toca para entreter aos convidados e as famílias se cumprimentam. Colocaram, no altar, o pai de um, com a mãe do outro e vice-versa. Disseram que é moderno. Para unir as futuras famílias. Eu acho que tem cara de putaria e de troca-troca dos anos 1970.

A marcha fúnebre toca, ops, nupcial, entra a pequena dama, espalhando flores mortas pelo vale das sombras e eu torço para que nela baixe o espírito de Liciane, autora do Pescotapa.

O noivo e o noivo entram, de mãos dadas. É um casamento gay. Homossexual. Abençoado por um padre, que usar algo parecido com uma saia. Ou um kilt havaiano. Alguns choram, outros tiram fotos com suas cybershots pra colocar no TwitPic e eu vejo lentamente um ex-namorado caminhar umo à eternidade com outra pessoa.

E penso em todos os anos que vão passar juntos. Penso em todas as posições sexuais nas quais ele era bom e em todas as outras que o ensinei a praticar. E como ele será capaz de fazer com o outro tudo aquilo que não fez comigo. E que o “não é você, sou eu” é a afirmação mais falsa da história desde que disseram que há tampa para qualquer panela.

Enquanto os dois caminham, abraçados, assisto à cena e percebo que a felicidade não é um plano a longo-prazo. Não é algo que se planeja. É algo a ser feito. Construído. E que, mesmo que as coisas não dêem certo, mesmo que o barco fure e o Titanic amoroso seja engolido pelas águas, há mais alegria nos acertos feitos do que nos erros não cometidos. Mas que a vida é misericordiosa. Ela te proporciona momentos constantes de epifania e redenção, e que não há olhar marejado que te impeça de ver que para cada descompasso, para a cada tropeço, há a escolha de trocar o pé e escolher onde se vai pisar adiante. E você não precisa definir o caminho. Não precisa acertar a rota. É só dar um passo, um após o outro. Eles seguem, eu sigo, e esse mundo dá voltas. Eles se casam e eu me comprometo comigo mesmo.





Repost: Saindo da Fossa: Procure a Doceria mais Próxima

27 01 2010

Precisamos reconhecer o poder terapêutico dos doces. Se uma panela de brigadeiro faz milagres e tira da fossa, camisinha com sabor é felicidade pra quem não é alérgico a frutose. Pra quem é chocólatra, Johnny Depp na Fantástica Fábrica de Chocolate é filme pornô.

Para quem pensa que o cômodo da casa onde se come oficialmente seja o quarto, já vi relacionamentos terminarem na cozinha, brigando em frente a dispensa. O pequeno armário, depósito de bolachas, doces e balas, era quase um closet para um casal que utilizava glicose como forma de esquentar a relação com danone e danete seguindo a rima. Um deles trocou sal por açucar, sem querer e quase matou o companheiro engasgado com pressão alta.

Quando eu era pequeno, felicidade se chamava Kinder Ovo. Eu era especialista em engolir o pequeno chocolate oval com surpresa e tudo e brincava de arrotar o brinquedo. Quando ia ao supermercado, minha mãe me distraía jogando Sparkies e Tic Tacs de longe, mantendo minha boca ativa e distraída enquando ela enchia o carrinho com coisas saudáveis e ruins. A coitada preparava refeições coloridas mas nada aquilo tinha sabor de corante e nem deixava a minha boca colorida.

Temo que o mundo esteja ficando chato. Barrinhas de cereal passam por apertivo e, por vezes, como refeição. Gente que acha açaí gostoso e não percebe o gosto de terra daquele semi-alimento roxo, com cara de emulsificado. Para mim, no máximo, parece produto capilar de cor duvidosa.

A seção de doceria foi tomada por produtos sugar-free. Tiraram todo o sabor da coisa. Dessa forma, para me divertir, vou ter que trocar o supermercado pela farmácia, com camisinhas e caixas de gardenal. Quem toma sorvete e não leite no café da manhã tem mais medo da diabetes e da gripe suína. Mais gostoso que menage à trois só dividir um bom pote de Haagen-Dasz com um amigo.

Para o Brasil, sugiro a bolsa-doce. Uma cesta básica contendo um verdadeiro kit-glicose. Doce é a solução para a paz mundial. As pessoas seriam muito mais felizes se comessem doces. Se o seu chefe estiver chato, enfie um pirulito na boca dele. Se o ex te incomoda, dê um pé-de-moleque na bunda dele. Por um mundo mais feliz, mesmo que com mais cáries. Aumente o consumo de cana e o lucro da Colgate. Coma e sorria. (Se for chocolate, olhe no espelho antes para não aparecer com dentes sujos). Vai dizer que você não vê um picolé e o ouve dizer: “me chupa!”?





Brad Pitt x Jennifer Aniston: Quem é você?

19 01 2010
Após uma separação, as pessoas tem duas opções: Brad Pitt ou Jennifer Aniston. Se está em dúvida sobre como proceder, por favor, marque um X em cada opção e some os pontos ao final do questionário.

Brad Pitt

(   ) Peguei a Gwyneth Paltrow antes de ela virar velha e groupie de banda inglesa e colocar nome de frutas nos filhos.

(   ) Fotos minhas nu circulam pela internet.

(   ) Gosto do Tarantino.

(   ) Tenho um aspecto facial meio símio.

(   ) Comecei a fazer bons trabalhos recentemente.

(   ) Sou conhecido por interpretar a mim mesmo em diversas situações.

(   ) Gosto de estar com muitos homens. Às vezes, onze homens. Às vezes, doze. Até treze. E guardo um segredo.

(   ) Quero casar e ter filhos internacionais. De preferência, um de cada continente. Espírito olímpico na cama e na vida.

(   ) Quero ganhar um Oscar.

(   ) Não me incomodo se Angelina Jolie passar de Lara Croft à Mortícia Addams após o casamento.

Jennifer Aniston

(   ) Quero chorar com a Oprah.

(   ) Gosto de ficar mais bonito após términos de relacionamentos.

(   ) Não me importo que tenham dó de mim desde que eu esteja me divertindo.

(   ) Não nasci pra casar ou ter filhos.

(   ) Nasci para ganhar 1 milhão e meio por semana. Em dólares.

(   ) Nasci para pegar John Mayer, Gerard Butler and counting…

(   ) Quem precisa de um Oscar quando se tem um Emmy e um Globo de Ouro?

(   ) Tenho uma amiga chamada Courtney Cox e não faço piadinhas com o nome dela

(   ) Sou de ascendência européia direta, mas me depilo.

(   ) Enquanto alguém preenche esse questionário, provavelmente, já mudei de pretendente.

E aí, quem é você?





A Vida Após Eliminação do BBB ou O Poder do Anonimato

13 01 2010

Ok, você foi eliminado do Big Brother, sua família suada te espera fora do confinamento, você dá um abraço no Bial, faz a entrevista pelo chat da Globo e vai para casa aguardando convites para festas. Você irá tirar fotos com desconhecidos, provavelmente fazendo o sinal da paz com os dedos, seu Orkut será mais visitado e mulheres vão pular na sua cama. Delícia, né?

Meu caro, já te aviso: ninguém vive eternamente de festas. Por mais que seja possível ganhar dinheiro com presença em eventos de semi-artistas, não dá pra viver de salgadinho e champanhe barata. É preciso trabalhar. E, acredite: não dá pra incluir a experiência no Projac no currículo vitae para aquela vaga como auxiliar de escritório.

Ex-BBB deveria ganhar seguro-desemprego.  Os ricos não se incomodam com as pseudo-sub-celebridades em suas festas cobertas pelo Amaury Jr;  os pobres têm aquela certa fascinação por quem aparece na TV e problemas bem mais sérios do que ter raivinha desse povo. Mas a classe-média, essa sim, não perdoa, e não aceita esses membros de volta. Sair da casa do Big Brother é mais ou menos como sair da prisão. Além do confinamento em comum, você perde uma boa dose de crédito com esse setor da sociedade.

Afinal, entre demitir um ex-BBB e um funcionário comum, quem o chefe prefere mandar embora? O ex-reality-show, claro, só para poder dizer: “você está eliminado” e contar para os amigos, sentindo uma pontinha de Pedro Bial em sua face proletária.

Além disso, as pessoas te assistiram por semanas na televisão. Já te viram de sunga, com cara de sono e imaginam teu mau hálito matinal pela TV. Os futuros namorados já viram a cicatriz da tua cesariana e sabem que há um certo acúmulo de celulite na tua coxa esquerda. Não há muito segredo. E, se você era vilão da história, pode ser condenado a passar a vida dizendo: “era só uma estratégia de jogo”.

Então, como lidar com essa etapa pós-fama? Como ficar realmente fora do radar social e da inspeção da classe-média? Simples: sumir. Não falo em sair do país. Nem sempre o aeroporto internacional é a melhor saída. Mas virar um ilustre desconhecido é uma boa maneira de usar um pouco do dinheiro que ganhou e levar uma vida regular e , até, feliz, já que estamos todos sujeitos à infelicidade, participantes ou espectadores do BBB.

As pessoas mais felizes com o fim do Big Brother, tirando a Rede Record, a Grazi e os vencedores milionários, são os participantes que não precisaram ficar correndo atrás da mídia, soltando release pra avisar que tinham mudado a cor do cabelo ou implorando participação em programas vespertinos de fofoca.

O anonimato é subestimado. Ele permite que você possa recomeçar sua vida quantas vezes quiser, onde estiver, e como puder. Transitar no meio do povo sem ser reconhecido te ajuda a reparar erros e se tornar uma pessoa melhor fora do microscópio social do público. Sendo você, e não quem as pessoas esperam que você seja, fica mais fácil de recomeçar. Agora imagine o desafio de fazer isso após grande exposição em nível nacional? Entre os vários reboots e deletes que damos em nossas vidas, estes são os botões e opções que realmente valem mais que um milhão de reais.





Como NÃO fazer uso de uma piscina ou Como quase morri afogado

11 01 2010

Eu não sei nadar. Nunca sequer tentei. Não fico bem de sunga e não consigo imaginar que a água irá se movimentar apenas por esforço desses meus bracinhos magrelos. A minha relação com água é prática. Acontece por cerca de 30 minutos em banhos diários e naqueles 5ml em que ela está presente na fórmula de Coca Cola.

No entanto, de um tempo pra cá, tem ficado inevitável estabelecer uma relação de convivência pacífica com essa composição de H20. Com o calor, festas à beira da piscina estão cada vez mais frequentes. Sou convidado, não posso ir, e as pessoas perguntam se estou menstruado ou se sou feito de açucar. Não é legal.

Para evitar qualquer tipo de exclusão social aquática, resolvi tentar. Aos poucos, claro. Tenho um medo irracional. Acho que meu corpo irá se encher de água, por osmose, ou que irei afundar, serei resgatado por uma salva-vidas gorda e, por alguma razão, ela tirará a minha sunga enquanto faz respiração boca-a-boca.

Primeiramente, enchi a banheira e tentei abrir os olhos debaixo d’agua. Lembre-se de não fazer isso em casa se tiver derramado o pote de sabonete líquido no local. Arde. Difícil, mas deu certo.

Com a chance de conseguir ficar submerso por um tempo, erabom fazê-lo de um modo visualmente agradável. Testei sungas, daquelas grandes, que cabem duas pessoas, às bem pequenas, que deixam o orgal sexual oposto. Optei por um modelo discreto, indie e, claro, masculino.

Era a hora de testar. Final de férias e até agora eu não tinha descido à piscina do prédio, que cuja manutenção corresponde à 75% do que pago de condompinio. Usei esse argumento econômico para me dar forças a fazer uso dela.

Piscina de condomínio é uma merda. Cheia de crianças bêbadas de cloro e mães donas-de-casa desesperadas tomando sol na esperança de queimar a celulite. Mas meus vizinhos amigos estavam lá, em grupo, me chamaram e eu fui. Todos entre 17 e 20 anos e mal sabem que se fosse na internet nós não frequentaríamos a mesma sala de bato-papo.

Um a um eles entraram nesse grande reservatório de água. Era a minha vez. Eu não ia pular, claro. Molhei os dedos do pé, a nuca com a mão, espirrei água no rosto e fui submergindo, pouco a pouco. Fiquei assustado. Eu não boiava. Como assim? Até bosta boia e eu afundo? Seria agora que meus orifícios seriam invadidos com água como se não houvesse amanhã?

Com muita calma, fiquei lá, andando de um lado para o outro, com a delicadeza de um poodle em afogamento. Meus amigos nadavam, jogavam água um nos outros  e eu ali, em pé.

Com pouco de tempo, fiquei mais confiante. Resolvi ficar em um pé só. Deu certo. Logo depois, tirei outro pé. Comecei a boiar, lentamente. Era quase uma levitação. “Pense em coisas felizes e nade”, disse para mim mesmo. Mas isso só funciona para vôo em direção à Terra do Nunca. Aos poucos, minha confiança se transformou em desespero. Eu estava embaixo d’gua e não conseguia voltar. Com vergonha de pedir ajuda, fui ficando quietinho. Vi Iemanjá sair pelo ralo e me jogar um xaveco. Poseidon enfiava seu tridente em minha bunda e eu saía da vida para entrar na história como uma oferenda entregue ao cloro de uma piscina de condomínio, afogado e destituído do título de ser humano.

Enquanto eu imaginava mitologias, claro, a mãe de uma das crianças gordas que estavam perto de mim já prestava primeiros socorros. Cuspi quantidade de água suficiente para esvaziar a piscina pela metade, mas estava vivo.

Ainda é um mistério como consegui me afogar em uma piscina tão pequena e em tão pouco tempo. Para todos os efeitos, hoje, só frequento locais com piscina usando bóias. Chamo a piscina infantil de ofurô e fico ali, rezando por proteção marítima.

Tenho trauma de piscinas. Tenho trauma de água. Fico trêmulo quando seguro garrafas de refrigerante de 2,5l (é muita coisa) e sonho que sou perseguido por galões de água de 20l.





Ao Vencedor, as Batatas ou Como Deixei de Fazer uma Entrevista

30 09 2009

Há pouco tempo, uma família estabeleceu o seu ganha-pão por meio da venda de batatas-fritas. As três crianças, com menos de 12 anos, descascam o tubérculo em tempo integral, a mãe frita em óleo diesel e o pai, para negar o ócio, conta as pequenas notas e guarda no caixa o que sobra de tudo que é gasto no bar da esquina.

Se qualquer nutricionista teria um ataque epiléptico em observar o overdose de gordura e a falta de higiene, a fila estava cheia de proletários cansados, motoristas de lotação e seus uniformes verdes e estudantes procurando por carboidratos e ataques cardíacos. Era a receita do modesto sucesso desta praça.

O pai vestia uma jaqueta do Sebrae, que dizia Gestão Empreendedora. Parecia a ironia personificada, registrada em carteira como hipocrisia de um mercado de trabalho falido. As crianças não usavam muita roupa, mas o calor do fogão não permitia que ninguém passasse frio. Vez ou outra, uma batata pulava do óleo e mãe alimentava um cachorro que costumava perseguir jornalistas curiosos naquela praça. Mais manso, me poupou de corridas e parei de levar pequenos pedaços de bife nos bolsos para distraí-lo.

Paro em frente, peço uma porção. “Média, por favor”. Recebo um copo plástico, mergulhado em um líquido viscoso. As batatas estão cobertas por maionese, catchup e mostarda e o cenário de uma chacina numa feira de legumes em forma de copinho. O garfo acompanha e o suco é grátis, tudo por R$ 2,00.

Rezei, pedi perdão pelos meus pecados e dei a primeira garfada. E não era ruim. Em algum lugar, aquilo tinha gosto de comida. Talvez fosse a tão falada “sustância”. O peso do alimento serviu pra calar meu estômago de qualquer ronco. A fila que caminhava atrás de mim também calava o julgamento de que eu estava agredindo meu próprio corpo pela boca.

Havia sido uma experiência social, eu não morri e estava pronto para repeti-la.  Resolvi que era a vez de chegar lá e fazer mais perguntas para aquela família. Consultar a mãe sobre se ela se preocupava com a saúde alimentar dos filhos, se o paisabia que esse tipo de comércio é proibido e se as crianças frequentavam a escola. Eram as dúvidas de quem sempre se preocupou mais com a sua alimentação do que com a dos outros.

Então foi naquele ponto de venda de batata, em um pote cheio de condimentos e gorduras, que eu vi que os pequenos estavam, de fato, mais gordinhos, e que a mulher parecia mais feliz. Talvez porque seu marido frequentava cada vez menos o bar das esquina, mais ocupado em contar as notas e pensar em comprar um carrinho maior. Senti vergonha. Se isso não é gestão empreendedora, eu não sei o que é. Era hora de encarar que eu havia perdido. As minhas perguntas não importavam mais. Eu havia sido preconceituoso. “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.





Nós falhamos.

28 09 2009

Nós falhamos. Falhamos em doar atenção e vender esperança a quem precisa. Em manter as ovelhas perdidas próximas ao bando. Em ser menos boca e mais ouvidos. Em compreender, não apenas entender. Em julgar, e não confessar que nossos pensamentos também já passaram por lá. Cada fuga é uma perda. Cada recusa é um atestado de nosso erro como sociedade. Estamos esquecendo dos meios necessários para que todos, e todos mesmo, se sintam parte do processo. Quando remédios são combustíveis e psicólogos são muletas, é fácil esquecer que a dor é o mais democrático dos sentimentos. E nessas horas amar ao próximo é tão horrível quanto incesto. Um estupro à individualidade. Uma decisão solitária. Como se as experiências não fossem todas compartilhadas. Como se o eu não fosse revelado junto ao outro. É nesse conflito que nasce a personalidade de cada um. Naquilo que me agride, o que me ofende, o que me repulsa, o que me entedia, o que me enoja, o que me falta. Será que temos as condições necessárias para nos mantermos vivos e conscientes? Menos confiança, mais amor. Estamos falhando. Estamos perdendo e não falamos sobre. A socieade da infomação se cala, esconde os números. Salva o choque, mas esconde a reflexão. E essas pessoas vão, uma a uma, escapando de nossas mãos, em um eterno e longo caminho solitário de quem preferiu partir à acompanhar essa viagem.





Sobre Como eu Roubei uma Empregada

23 09 2009

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Assédios sexuais em elevadores, mulheres que andam de salto e causam enxaquecas, brigas conjugais por roubos de chip, crianças que choram demais, moradores que pisam na grama, carros mal-estacionados e monopólio da churrasqueira costumam ser os principais motivos de briga no condomínio onde eu moro. No entanto, tudo assumiu uma proporção frente ao problema maior: eu roubei uma empregada.

Não é fácil chegar em casa e sentir aquele cheiro de comida gostosa pronta. Eu não sou casado. Minha mãe trabalha e meu cachorro não cozinha. A rotina é simples: chegar em casa, pegar o arroz, colocar no microondas e fritar uns nuggets. Não sou uma pessoa menos feliz por isso. A praticidade roubou a realidade de uma boa refeição pré-sono, eu sei, mas seria injusto bater na minha mãe por causa de comida. Prefiro dedicar outros motivos a isso.

Sendo assim, é uma afronta ver que meu olfato era aguçado pela casa ao lado. Encontrar os moradores daquele apartamento de manhã no elevador era insuportável. Aquela cara de bem comidos, sorriso no rosto, barriguinha que não ronca e outras  características de quem dedica a mesma atenção à cama e à mesa. Isso tinha que terminar de algum modo. Não é inveja. É igualdade social.

Logo, resolvi investigar. Se fosse a mulher que cozinhasse, ofereceria sexo gratuito em troca de comida. Se fosse o marido, eu comprava um livro de receitas. Ou o contrário. A responsável pelas refeições daquela casa era uma moça que se chama Roberta* (*nome fictício para defender a sua integridade física e moral). Fiz a Roberta uma proposta que ela não poderia recusar: trabalhando em minha casa, ela não precisaria limpar ou atender o telefone, bastava fazer as melhores refeições do mundo. Compensei a lealdade com algumas notas e logo ela se mudou para a minha casa.

Os primeiros dias foram uma maravilha. Roberta chegava cedo, fazia o café da manhã e eu me sentia num comercial de Doriana. O relacionamento familiar melhorou e até meu cachorro passou a ser alimentado diariamente. Minha mãe se sentiu um pocuo desprestigiada, mas as porções de bolinhos de chuva faziam qualquer um engolir o orgulho com gosto.

Quando tudo vai bem, o caos se aproxima. A contratação de Roberta gerou um mal-estar. Os moradores do apartamento, que perderam os serviços da moça, se sentiram lesados. Cortaram relações conosco e não nos convidaram mais para festinhas no salão de festas do prédio. Além disso, contrataram uma outra empregada, de um outro apartamento. Isso gerou em efeito em série, gerou uma alta no mercado especulativo de empregadas ao ponto de que muitas passaram a semana em suas casas, de folga, selecionando propostas.

Pessoas com fome tendem a ficar mais agressivas e o síndico convocou uma reunião. Após uma sessão tensa, com ameaças de morte e prestação de contas sobre licitações duvidosas de compra de samambaias artificiais, ficou estabelecido: “Nenhum morador está autorizado a contratar qualquer tipo de prestador de serviço que atue na residência de outro condômino. E pisar na grama continua proibido, exceto o responsável pela limpeza da placa de “Proibido Pisar na Grama” por motivos óbvios”.

Continuamos com Roberta. Com o tempo, ver a casa desarrumada não compensava mais ter as refeições de uma novela de Manoel Carlos. Era desconfortável sentar no lixo empilhado e brigar com as formigas por um pedaço de pão. Tentamos renegociar, mas Roberta estava acostumada com o conforto proletário ali estabelecido. Era hora de mandá-la embora. Chamei para conversar e dispensei a moça. Ela chorou um pouco, eu chorei mais e ouvi a barriga roncar. Era a aposentadoria do meu olfato e a certeza do fim de uma era de benção alimentar.

Para quem ficou triste, Roberta logo foi recontratada pelo apartamento vizinho, que dispensou a sua empregada, que voltou a trabalhar no apartamento antigo, que também mandou a diarista anterior embora. Hoje, o síndico pensa em convocar uma nova reunião para decidir se as despesas com as demissões podem ser incluídas no condomínio em forma de rateio. Prefiro gastar meu dinheiro na linha de congelados Sadia.





Menino da Lua

23 09 2009

por Renan Marin

Sobre todos os dias inquietos, dias de calor infernal e de batucar em mesas e estantes. Dias iguais, diferentes, dias de céu azul, dias que só acontecem aqui, dias de quem não tem tempo pra pensar, dias pra achar desculpas, pra fazer pratos gelados de doce para após o jantar.

Sobre todos os dias que encontramos as desculpas mais absurdas apenas pra justificar nossa falta de vontade, nosso fraquejar. Sobre as músicas que ouvíamos e deixamos de ouvir, sobre a rádio que cansamos de sintonizar, sobre as pessoas que continuamos amar, sobre os passos que poderíamos ter dado e não demos. Sobre o fim de tudo, os princípios que existem desde que o mundo é mundo, sobre a camisa mal passada, sobre contar o que sonhei a noite pra ele, que sempre estará ali pra escutar.

Sobre banho de mar.

E também sobre os domingos de sol, comer fruta embaixo de árvore e sentir formiga beliscando a bunda, sobre feridas que cicatrizam, pois elas sempre cicatrizam. Sobre provas que tinham semblante de piores do mundo, sobre deitar no chão do quarto com a luz desligada e esperar o tempo passar. Sobre os perfumes característicos das épocas dele, sobre presentes que comprávamos quando o dinheiro era fácil, sobre beijos escondidos e amores platônicos que seriam pra vida toda até o próximo amor.

Sobre velhos amigos, sobre filmes que todos viram – menos você, sobre como pessoas significam mesmo através dos anos, sobre o primeiro fio de cabelo branco, sobre credibilidade e a possibilidade de esgotamento desta, sobre listas de supermercado, festas nos apês.

Sobre Brasil, London, Amsterdam, NY. Sobre o que está longe, o que está perto, o que desejamos, o que perdemos, o que nunca ganharemos, o que sonhamos, o que comemos, o que sangramos, o que acreditamos.

Sobre nós dois.

O futuro, o ontem. O que se passa e o que jamais irá acontecer. O que planejamos.

Sobre o que lembramos, sobre a vida e o que ainda viveremos nela.

Sobre ele, o menino luno, da lua. Que eu amo, e que jamais vai sair da minha vida.





Confissão de um assassino indie

18 09 2009

Tinha uma banda que eu gostava. Os caras eram locais, do meu bairro. Tocavam bem e era agradável. Até a minha barba por fazer coçava menos. Era uma influência meio Talking Heads, com algo da geração britpop dos anos 90′. O vocalista tinha um toque meio Damon Albarn e usava óculos de armação grossa. Era bacana, descolado e tinha pernas finas. Eu ouvia suas músicas da janela do meu quarto e parecia ser a trilha sonora dos meus dias, como se eles tocassem só para mim. Era uma versão indie da rádio Alpha FM que embala meus dias proletários no trabalho. Deixei de bater na minha mãe, diminuí as doses de Tarantino por dia e passei a ler menos Kafka. Até a MTV parecia menos ruim. Eles eram bons, só eu conhecia. Tão meus. Mas essas coisas não duram. Eles criaram uma página no MySpace e eu sabia que era o começo do fim. Eles estavam começando a se vender e perder a magia por dinheiro, fuckin’ money! Se queria grana, eu poderia entregar minha mesada mensalmente. Depositar em sua conta bancária ou pagar em bala! Não precisavam tentar o sucesso. Afinal, o que ele proporciona? Boas festas, garotas fáceis e uma vida fútil? Será que eles não aprenderam nada com Time To Pretend do MGMT? Eu via todos aqueles garotos de camisa xadrez e garotas de vestido de polka floodando a página dos meus artistas com mensagens de identificação e pedidos de show! E eles eram meus, sabe? Meus! Minha banda numa rede social, prestes a adentrar no caminho mainstream. Logo logo estariam formando bandas internacionais ou namorando menores de idade. Eu precisava agir antes que isso acontecesse. Não podia admitir que eles fizessem show para uma casa lotada, com quase 1.000 pessoas, cantando canções tão minhas. Tão nossas. Só nossas. Tomei a minha dose matinal de Sucrilhos com Gardenal, peguei uma fita K7 e um revólver 38, super vintage. Saí de casa com um propósito e determinação de A Noiva, de Kill Bill: manter os meus desejos indies intactos. Eu invadi o ensaio da banda na garagem. Fechei as portas. Apaguei as luzes. Brilhei no escuro porque tenho um passado clubber e fiz com que tocassem 4 músicas para mim. Inéditas. Como se fosse um EP. A voz assustada do vocalista sob a mira trêmula de um ruivo magrelo apontando uma arma era sensacional. Era única. Gravei em K7, que já tá bem old school. Vinil já deu o que tinha que dar. Ao final da gravação, dei um tiro no vocalista, na baterista e torturei o baixista com sessões de Coldplay sem fim. Segui a ordem da discografia e quando chegou em X&Y ele já havia se matado enforcado com uma echarpe indiana. Sentei. Coloquei a fita K7 no tocador em volume super alto. Ouvi sirenes da polícia lá fora e decidi que a cadeia não seria meu lugar. Meu rosto fica pálido em mugshots, não se usa xadrez na prisão e listras não favorecem o meu quadril. Deitei-me ao lado do amplificador, tirei do bolso uma faquinha de cortar rocambole Panco e cortei meus pulsos durante 12 horas ao som da minha EP favorita. Ah, o nome da banda e das músicas? Não falo! Elas são minhas! Google me, baby.





Como ir ao Hospital, Sobreviver à Medicina e Não Morrer

16 09 2009

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Ainda dá pra acreditar na medicina, levando em conta a enorme taxa de mortalidade nos episódios de ER e médicos muito mais preocupados em fazer sexo em Grey’s Anatomy? É claro que são altos os numeros de casos não-diagnosticados e classificados como virose! Virose nada mais é do que o vírus de Resident Evil, contaminando humanos que se tornarão morto-vivos (por que não se fala zumbi) comedores de cérebros.E, acredite, essa multidão, com raiva e ressentimento, vai se encaminhar ao hospital mais próximo para se vingar dessa galera que veste branco. Nem pai de santo estará a salvo.

Recentemente, com febre alta e dores de cabeça forte, resolvi ir ao hospital. É triste perceber o descaso com o qual você é tratado se não tem gripe suína. Aqueles com coriza e tosse eram levados para uma sala vip, com máscaras coloridas e TV de LCD. Eu fiquei na sala de espera, dividindo meu assento com uma velhinha com incontinência urinária.

Meu mundo girava enquanto uma estagiária de Medicina checava meus sinais vitais. Sim, eu estava vivo, apenas entediado com a programação vespertina da TV aberta. Desconfiaram de meninginte, minha nuca estava rígida e eu fiquei com vergonha de avisar que poderia ser apenas desconforto causado por horas excessivas no computador.

Você percebe que algo perigoso se aproxima quando muita gente vem falar sobre o mesmo assunto contigo. Três enfermeiros vieram me avisar e informar sobre o procedimento do colhimento de líquor, que é um líquido que eu nem sabia que tinha na espinha. E todos concordavam em uma coisa: é um procedimento dolorido.

Menos dor, mais constrangimento, afinal, um enfermeiro segurava minhas pernas, em posição fetal, enquanto uim médico enfiava um cano grosso e comprido nas minhas costas. Nem doeu, mas evitei dar qualquer gemidinho de dor para não perder a moral e o respeito com meus colegas de ambulatório de observação. Estavam todos acompanhados e eu ali, twittando os procedimentos hospitalares.

Descartada a meningite, o médico desconfiou de um possível aneurisma. Pediu exames neurólogicos e fiquei com medo que ele lêsse esse blog. Fez alguns testes, me encaminhou para a tomografia e agora eu tenho uma linda foto-comprovação de que tenho um cérebro. E ele é grande e bonito! Tentei xavecar algumas enfermeiras, mas elas perdem o respeito por você depois de aguardar na salinha ao lado enquanto você faz exame de urina.

Sem doenças mais graves, fui rebaixado no hospital. Trocaram a minha pulseira amarela por uma verde. Agora eu era considerado tão doente quanto a samambaia seca que decorava a sala das enfermeiras. Tomei medicação na veia, fui levado de cadeira de rodas até o carro e encaminhado para casa deitado no banco de trás. Perdi o acesso ao café expresso da sala dos médicos e trocaram minha enfermeira por uma mais gorda.

Após o exame, tive que ficar 24 horas deitado e é incrível perceber como o teto do seu quarto fica mais interessante nessas condições. Aproveitei o tempo suspenso para pedir desculpas à desafetos, formular xingamentos à novos inimigos e ligar para Whoopi Goldberg, informando-a sobre a minha doença e a deixando responsável por mais informações caso eu decida ver Jesus mais de perto.