*post agendado
Eu não entendo como alguém pode se casar e esperar ser feliz com isso. Não entendo. Eu não passaria nem seis meses ao meu lado, se tivesse essa opção. Mas as pessoas se conhecem, namoram e casam, mesmo sabendo que o outro nunca vai deixar aquela mania chata de cutucar os dedos do pé enquanto dorme. Mas melhor parar. Deve dar algum azar ser padrinho de um casamento e botar pilha contra a cerimônia. Apesar de ter conversado com o diabo, eu só acertei as pontas com Deus mesmo e é melhor não tirar o regente milenar do sério.
Mas olha, casar é engordar. E não do jeito gostoso, cheio de pedaços de carne do outback e material genético alheio. É ganhar peso por reter mágoas, sentimentos ruins e tesão por outras pessoas. É estar tão preso à alguém que o seu próprio corpo torna-se uma cela, impossibilitando qualquer possibilidade de visita conjugal.
E mesmo com essa visão, fui convidado a ser padrinho. A me juntar àquelas pessoas felizes e bem-vestidas, com lágrimas nos olhos e que acreditam realmente que o amor vai superar à lua-de-mel programada à Aruba, mesmo com as ameaças de gripe suína.
Nenhum assento vazio, decoração pomposa, muitas fitas, muitos laços, uma banda de rock toca para entreter aos convidados e as famílias se cumprimentam. Colocaram, no altar, o pai de um, com a mãe do outro e vice-versa. Disseram que é moderno. Para unir as futuras famílias. Eu acho que tem cara de putaria e de troca-troca dos anos 1970.
A marcha fúnebre toca, ops, nupcial, entra a pequena dama, espalhando flores mortas pelo vale das sombras e eu torço para que nela baixe o espírito de Liciane, autora do Pescotapa.
O noivo e o noivo entram, de mãos dadas. É um casamento gay. Homossexual. Abençoado por um padre, que usar algo parecido com uma saia. Ou um kilt havaiano. Alguns choram, outros tiram fotos com suas cybershots pra colocar no TwitPic e eu vejo lentamente um ex-namorado caminhar umo à eternidade com outra pessoa.
E penso em todos os anos que vão passar juntos. Penso em todas as posições sexuais nas quais ele era bom e em todas as outras que o ensinei a praticar. E como ele será capaz de fazer com o outro tudo aquilo que não fez comigo. E que o “não é você, sou eu” é a afirmação mais falsa da história desde que disseram que há tampa para qualquer panela.
Enquanto os dois caminham, abraçados, assisto à cena e percebo que a felicidade não é um plano a longo-prazo. Não é algo que se planeja. É algo a ser feito. Construído. E que, mesmo que as coisas não dêem certo, mesmo que o barco fure e o Titanic amoroso seja engolido pelas águas, há mais alegria nos acertos feitos do que nos erros não cometidos. Mas que a vida é misericordiosa. Ela te proporciona momentos constantes de epifania e redenção, e que não há olhar marejado que te impeça de ver que para cada descompasso, para a cada tropeço, há a escolha de trocar o pé e escolher onde se vai pisar adiante. E você não precisa definir o caminho. Não precisa acertar a rota. É só dar um passo, um após o outro. Eles seguem, eu sigo, e esse mundo dá voltas. Eles se casam e eu me comprometo comigo mesmo.




